Surges tortuosamente devagar

Meia-noite, hora que apavora os cobardes, já me encontro no local combinado.
Não me recordo de ter visto um outro céu tão bonito.
Saí do carro e encostada, deliciei-me com a belíssima tela que aquela noite pintou para mim. O vento era acariciante, e soprava-me no pescoço como se me tentasse seduzir… Emociono-me a olhar para o céu ao notar que todas as estrelas vieram assistir ao nosso encontro. Esta ideia deixou-me nervosa. Ainda não tinhas chegado.
Surges tortuosamente devagar. Estavas a observar-me. Em pensamentos agradeço ao vento por estar a brincar com o meu vestido fazendo com que balanceie e marque a minha silhueta. Acertei no vestido. Tecido fino leve modelito nem largo nem justo, a medida certa para o meu aliado (o vento) revele e esconda a acentuação das minhas curvas. De vez em quando, o atrevido do meu aliado, fez subir o vestido revelando as minhas coxas, e seguro-o com as mãos uns segundos e só o solto depois.
Cada vez mais próximo de mim, sinto o meu estomago a contorcer.
A menos de um passo do meu corpo, perdemo-nos no nosso olhar.  Afastaste os meus cabelos rebeldes empurrados pelo vento dos meus lábios, onde te perdeste por segundos, devolvendo o teu olhar para as janelas da minha alma. Que olhar intenso. Não me recordo de alguma vez ser vista daquela forma. O teu olhar emocionou-me, percorreste a minha alma e surpreendentemente não tive medo. Tu viste-me. Alcançaste-me.
Suave, intenso, quente, sedutor assim foi o nosso tão desejado beijo. Os teus lábios nos meus, o teu coração a pulsar contra o meu peito fez com que deixasse de sentir o chão, o vento… tudo o resto. Se este momento fosse uma cena, apenas nós dois estávamos em primeiro plano.
Desacelerámos o ritmo das nossas bocas insaciáveis, diminuímos a temperatura do corpo e deitámo-nos sobre o capot do carro, lado a lado a contemplar as estrelas e no mesmo pensamento continuámos a realizar as cenas seguintes com a assistência das estrelas. Estavam tão acesas como os nossos corpos.
A firmeza deste desejo, confirmada pela longa conversa compenetrada que os nossos corpos tiveram enquanto nos uníamos pela boca, fez-nos adiar aquele momento que acabará por acontecer…

Francesca Bruni

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