Capitulo n1

Nunca fui a favor de muitas palavras para descrever factos, pela simples razão que por mais que descreva o que senti, tu ao leres o que escrevi nunca sentirás o mesmo que eu. Vais tentar, certo, mas quando perceberes que não consegues, vais julgar o que senti, idiotice, os sentimentos não se podem julgar, ninguém é culpado do que sente.Como tal vou tentar contar a minha loucura, sem floreados, sem sentimentos exagerados, a minha verdade nua e crua, mais nua que crua, porque como todas as verdades esta foi cozinhada à minha maneira, mal passada, “al sangue”.

 

 

1

 

Confesso que aguardava este momento com alguma excitação, por um lado contar a minha historia a uma jornalista era um modo de voltar a viver aqueles tempos de loucura, por outro lado, esta jornalista em particular lembrava-me a loucura em si.

Preparei a sua recepção no mínimo detalhe, como estávamos em Maio em plena primavera mandei o motorista busca-la ao aeroporto de Nice, no Sul de França e pedi-lhe que antes de se encaminhar a casa fizesse um desvio pela “vielle ville” de Nice de modo a mostrar a mistura entre a cultura francesa e aquela árabe entre mercados tradicionais cheios de cor e perfumes das especiarias, onde o amarelo do açafrão das indias contrastava com o castanho doce da canela, pimentas pretas, brancas, verdes, vermelhas, o doce odor dos cuminhos e o cheiro amadeirado num castanho velho da noz moscada, o vermelho das várias malaguetas o verde do manjericão e dos orégãos tudo apresentado na forma de pequenas pirâmides, legumes apresentados como se obras de arte se tratassem, os tradicionais “fois gras” misturavam-se com os molhos italianos já prontos, tudo numa animada gritaria. Aconselhei depois que seguissem o caminho pela Bord de Mer, a Provença tem um perfume maravilhoso a lavanda nesta altura do ano e quis que a jovem jornalista contemplasse a inesquecível paisagem daquele grande espelho de agua azul turquesa. Ao chegar à minha casa o motorista parou, disse á pequena jornalista que encontraria a porta aberta e que eu a esperava dentro, recomendou ainda que fechasse a porta atrás de si.

A casa era uma pequena Villa em Antibes, pequena cidade a cinco minutos de Cannes, quinze de Nice, trinta de MonteCarlo de um lado e trinta de Saint-Tropez do outro e ficava imediatamente a seguir à última praia pública em direcção ao Cap d’Antibes após uma ligeira subida seguida de uma curva á esquerda quase dentro daquele Mediterraneo maravilhoso, de tal modo perto que nos dias em que o mar se revoltava as suas ondas batiam violentamente no grande vitral que substituía o que deveria ser uma das paredes da minha sala.

Decidi assim que comprei a casa, substituir aquela parede em rocha que protegia do Mar por um vidro duplo resistente que parecia convidar o mar a entrar. A construção desta pequena Villa era em pedra antiga, bem tratada em tons de castanho, no terreno de entrada tinha do lado direito um pinheiro bravo enorme que perfumava todo o ambiente e um baloiço por baixo, o jardim não estava tratado em nenhum modo especial principalmente se comparado com as luxuosas casas do Cap D’Antibes que hospedavam como residência de verão xeiques arabes, magnatas russos, membros da família real inglesa e sueca, empresários de todo o mundo e alguns mafiosos italianos, a dificuldade era saber quem era quem, mas era um jardim limpo de ervas daninhas, arrumado e respeitava o crescimento natural das plantas da flora local, tinha três sofás brancos de exterior espalhados pelo jardim todos acompanhados por uma pequena mesa de suporte mas o que sobressaia da casa quando se via de fora era que parecia ser engolida por aquele mar azul, era uma casa pequena, mas acolhedora e cheia de Luz.

Seguindo as instruções a jovem encontrou o grande portão de madeira aberto, ainda assim tocou a campainha, eu sabia que era ela e convidei-a pelo videoporteiro a entrar, esperava-a na sala em pé, em frente á enorme vidraça com vista para o mar com um copo de champagne Ruinart rosè na mão e com a garrafa no gelo em cima da enorme mesa de madeira crua, ofereci-lhe um copo e fizemos as apresentações.

Disse-me chamar-se Sabrina, tinha acabado recentemente a licenciatura em jornalismo numa qualquer universidade do Porto. Contava-me com alguma timidez ou talvez um pouco de receio não sei, mas sempre com aquela energia típica dos jovens, que ouviam-se muitas histórias sobre mim em Portugal mas que ela queria saber desta em particular, pouco importava a minha vida profissional ou social, queria perceber o porquê de ter feito o que fiz e se o que fiz condiz com o imaginário colectivo, pensava publicar um artigo numa importante revista ou quem sabe, dependendo das minhas palavras, escrever um livro e agradecia-me constantemente a oportunidade desta entrevista.

Eu pouco sabia sobre Sabrina para alem do email que me enviou com a proposta para me fazer esta entrevista junto de uma carta de apresentação e do seu cv, naquele email captei um essência do passado e não pude dizer não. Sabrina era uma jovem de 22 anos, de altura média, magra de traços finos como aqueles atribuídos a Cleopatra, a pele branca de quem passa os dias num escritório, morena de cabelo liso por cima dos ombros, os olhos de um castanho claro doces como o mel mas de uma profundidade inexplicável, um sorriso que iluminava tudo que a rodeava, tinha umas pernas longas e torneadas típicas de quem faz actividade física, um rabo firme e peito pequeno mas eriçado, vestia uns leggings castanho escuro e uma túnica creme que realçavam aquele corpo sem o revelar de forma exagerada, tinha, ao menos assim senti, um forte perfume a jasmim.

Brindámos… voltámos a encher o copo, Sabrina sentou-se num sofá virado para a grande vidraça que mostrava o Mar onde eu continuava de pé a observa-la, tirou o seu bloco de notas e decidiu começar de imediato…

 

2

 

 

Não sou muito tecnológica, gosto de sentir a ligação da minha mão com o papel através da escrita, já sei que parece ridículo para alguém da minha geração mas é um pequeno prazer… normalmente uso um gravador como apoio mas como nas suas condições estavam nada de gravadores, maquinas fotográficas ou de filmar, só me resta usar do melhor modo a minha memória.

Podemos começar sem rodeios certo!? Disse-me que podia perguntar tudo o que quisesse que me daria sempre resposta e assim farei… Porque o fez? O que leva uma pessoa a fazer uma coisa destas?

 

O que me levou a faze-lo? Não sei… talvez o meu lado escuro tenha falado mais alto.

Talvez o melhor modo de explicar seja contar desde o início… voltei-me então de costas para Sabrina e com o olhar perdido no imenso Azul do mediterrâneo iniciei…

Tudo começou quando navegava na internet em 2009, ironia do destino lutava por uma boa causa. Tinha-me envolvido na gestão de um grupo no facebook contra a mutilação genital feminina, uma barbaridade cometida em muitos países africanos que priva a mulher de clitóris eliminando com este gesto todo o prazer sexual transformando a mulher numa maquina reprodutiva, a mutilação era feita durante a infância normalmente com laminas não esterilizadas provocando a morte a muitas destas crianças. O meu argumento para despertar a comunidade internacional era considerar a mutilação genital como um roubo de Alma, de personalidade e individualidade, na minha opinião não se resumia a um corte com material não esterilizado, nem a uma privação de prazer sexual. Era uma iniciação a uma vida de escravatura moral e social, um primeiro passo para considerar a mulher uma propriedade e como tal ser passível de trocas, vendas e impossibilitando desde logo toda e qualquer participação séria e activa numa vida social, validando também deste modo que fosse negado o acesso á instrução se assim fosse decidido pelo seu “proprietário” e muito menos poderia ter uma participação politica.

Mutilava-se uma criança com a mesma simplicidade que se marca a fogo uma vaca.

Nos campos de concentração nazi a primeira coisa que se fazia aos Judeus era rapar o cabelo e tatuar um numero, ora um corte radical e uma tatuagem por si só não fazem mal a ninguém é o elas simbolizam que mete em joelhos as vitimas, percebem que a partir daquele momento deixaram de ter qualquer tipo de poder de decisão sobre a própria vida inclusive em coisas tão banais como um corte de cabelo ou uma tatuagem.

Considerava portanto a mutilação genital feminina um crime contra a humanidade e propunha um abaixo assinado para mais tarde levarmos o assunto ao parlamento europeu, esse argumento fez-me ser convidado para gestor desse grupo e atingimos os cerca de 60 mil membros em pouco mais de 10 dias.

Uma das minhas técnicas para fazer crescer o grupo era mandar mensagens aos meus amigos mais populares nas redes sociais para me ajudarem difundir a mensagem e o grupo, entre esses amigos estava ELA… não a conhecia, fazia parte daquele grupo de “amigos” que nunca vi mas que por um motivo ou por outro faziam parte do meu círculo nas redes sociais, trocamos umas ideias sobre o argumento e ficamos em contacto a partir dai.

 

Não se passa de uma mensagem com um objectivo nobre e social a uma ligação como a vossa…

 

Aproximarmo-nos foi obrigatório, fazia parte dos desejos íntimos de cada um de nós.

Trocávamos algumas mensagens ao início, no facebook ou no msn, depois passamos às vídeo chamadas e quando dei por mim falava cerca de 5 horas por dia com ela, eu na minha casa em Milão e ela na sua em Lisboa. Nunca nos tínhamos visto mas era quase um vicio aquela videochamada que iniciava sempre à meia-noite e durava pontualmente até à cinco da manhã. Confessávamos os nossos desejos mais puros, as fantasias mais escuras, contámos os nossos passados, a nossa infância, revelamos os nossos sonhos, falamos de Sombras e Luz de Deus e do Diabo dos pecados cometidos na forma tentada ou pensada na maior parte dos casos, mas também naquela conseguida, nada era dito de forma clara e aberta e no entanto sabíamos os dois que do outro lado tudo era entendido de uma forma nítida.

Contou-me que cresceu internada num colégio de freiras algures no Alentejo , podia contar o motivo pelo qual não cresceu com os pais mas não me parece relevante e seria decididamente pouco elegante da minha parte falar duma história que não é a minha nem que em nada influenciou a nossa loucura.

Foi expulsa do convento aos 14 anos depois de ter convidado um rapaz mais velho que estava a cumprir o serviço militar num quartel algures perto do convento (assim me disse) para o seu quarto às escondidas. Ele na flor da idade e provavelmente com os neurónios a habitar na cabeça errada entrou enfeitiçado por aquele demónio chamado Marta, demónio mas com uma cara de anjo capaz de seduzir Cristo em pessoa apesar da jovem idade.

Ela, possuída pelo seu verdadeiro desejo fez com que esta “ovelha” se despisse, amarrou-o á cama de lençóis brancos imaculados com cintos de veludo que uns minutos antes serviam para prender os grandes cortinados do convento, quando a sua “presa” se encontrava com os braços abertos bem esticados e ligados a cada uma das extremidades da velha cama de ferro com as pernas semiabertas como a imitar a posição de Cristo na Cruz mas nem por isso menos bem preso, Marta começou a sua tortura, meteu-se em pé em frente ao jovem, tirou os jeans e ficou só de cuequinha branca e t-shirt preta, subiu então para cima do jovem marialva que pensava de manipular uma menina inocente e delirava com esse pensamento. O soldado estava a rebentar de tesão com a ideia de possuir uma jovem virgem. Quando o demónio Marta sentiu essa vontade transformar-se um pau elevado no meio das pernas do guerreiro, revelou-se, mostrou o que é ter absoluto controlo da situação, beijocando-o despiu primeiro a t-shirt, depois o soutien e esfregou de seguida aqueles seios que são hoje maravilhosos, mas que na época não deviam ser mais que dois pequenos caroços excitados, no peito peludo da sua ovelha e quando sentiu com a sua mão o quanto duro estava o pau do jovem, puxou de uma faca de cozinha, que tinha escondido antecipadamente com uma frieza incrível debaixo da almofada e desferiu um golpe, felizmente ligeiro, no pescoço do jovem entesoado numa espécie de ritual demoníaco, fazendo do pobre militar um autêntico cabrito de sacrifício aos Deuses. Enquanto este perdia sangue, ELA, gozava em cima dele, não de uma forma sexual, pelo menos não da forma convencional da penetração, gozava ao ver o sangue que escorria, contou-me ter sido o seu primeiro orgasmo… felizmente para o magala alguém entrou no quarto a tempo de evitar um mal maior. Depois deste episódio e de um modo muito católico o convento decidiu expulsa-la abafando o caso, o jovem militar não teve outra escolha que aceitar o silêncio, no fundo ela só tinha catorze anos, foi tudo resolvido no pecado da omissão com a graça de Deus nosso Senhor.

Passou depois deste episódio uns anos no campo com os Avós numa aldeia perto de Évora, anos dos quais nada sei depois transferiu-se para Lisboa, contou-me várias coisas do seu passado, contou-me que era lésbica e que tinha apenas terminado uma relação com uma conhecida actriz portuguesa, contou-me as experiências profissionais, a sua grande paixão pela fotografia e a sua necessidade de escrever… criàmos um laço de confiança sem nunca nos termos visto, um laço de amor talvez, um laço de desejo e tesão isso sem sombra de dúvida.

Este ciclo de conversas pela internet já não deixava nenhum dos dois satisfeitos pelo que decidi ir a Lisboa.

Depois dessas revelações decidiu ir ter com Ela?! 

O que sentiu quando a viu?

 

Encontra-la no Aeroporto foi Paixão.

 

È difícil explicar o que senti, quando entrei no voo da Tap em Milão Linate por volta das 6 da manhã era uma quarta-feira sabia que ela ia estar em Lisboa no Aeroporto e que iriamos tomar o pequeno-almoço juntos, nunca nos tínhamos visto, sinceramente não me preparei em nenhum modo particular para este encontro, não meti nenhuma roupa especial, nem levei nenhum tipo de prenda, flores ou chocolates, mas pedi-lhe que metesse um vestido preto e branco que eu gostava de ver nas fotos, assim o fez, e estava linda.

Quando atravessei a porta das chegadas já em Lisboa os meus olhos procuravam Marta, caminhei na sua direcção e sem nada dizer olhei no fundo dos seus olhos, agarrei a sua nuca e puxei-a para um beijo cheio de paixão, foi a fusão de dois mundos, não sei quanto tempo nos beijamos, ás vezes tenho a sensação que aquele beijo dura até hoje.

Fiquei hospedado os primeiros dois dias no hotel íbis, no Rato, esses dois primeiros dias foram de romance, no modo tradicional digo, passávamos os dias aos beijos, aproveitamos ser o inicio do verão e passeamos pelas ruas de lisboa, bebemos chá no miradouro da graça, comemos um gelado no castelo de São Jorge enquanto imaginava-mos ser príncipe e princesa, jantamos no café in com uma magnifica vista para o Rio Tejo, foram dias sem revelações ou temas de conversa chocantes, Marta dormia comigo no Hotel Ibis com beijos, mimos, sexo e Luz. Foram dias de reconhecimento parece-me agora a esta distância de tempo, queríamos a certeza que podíamos confiar um no outro, tudo, o bom e o mau.

Na Sexta mudei de hotel, fui para o Sana Malhoa e foi ai que começou realmente a nossa história…

  

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A falta de Amor é a maior das pobrezas
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2 Responses to Capitulo n1

  1. susana says:

    Estou a adorar, se tivesse o livro tenho a sensação de que o lia de ” empreitada”

    • nunoserra6 says:

      Em breve estara disponivel nas livrarias … Mas os primeiro capitulos sao explosivos casanova do bairro alto

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